Fragmentos para um ensaio

...para um ensaio

  - no meio do palco-

 
 

- no meio do palco-

Havia uma menina sentada em frente a uma janela. Ela ficava a olhar durante horas aquelas pessoas que passavam, as crianças que corriam. De vez em quando saía dali e ia brincar com suas bonecas de pano e criava muitas estórias. Às vezes tocava flauta doce, às vezes brincava de cabaninha, às vezes dormia no meio do caminho. Às vezes sonhava acordada. Nas noites em que os fantasmas não param de aparecer, essa pequena corre para o teatro. Sem pedir licença entra e dá voltas, e mais voltas sem parar. Perde o fôlego. Suspira. Mergulha no meio do palco, olha as luzes, as coxias, percorre os camarins e sonhando senta na ribalta e fica a balançar os pezinhos bem devagar. Sonha acordada!

De repente ela capturava todas as fases da lua e se sentia a Julieta – tu me amas? Sei que responderás que sim e eu acreditarei em tua palavra- .

De repente, era uma bailarina azul, por ora um palhaço que voa e oferece balas aos pássaros.

De repente ela podia ser tudo que sua imaginação quisesse...

Os olhos atentos atrás da cortina esperando o início. O terceiro sinal. As cortinas se abrem. Eu me despedaço em sonhos. A melodia toca. Os olhos entram na caixa preta ou no círculo azul ou na rua cinza. Não importa. Ele acontece em qualquer lugar. Basta acenar e ele já vai entrando. Sirvo uma taça de vinho. Sirvo meus ouvidos, sentidos, boca, tato, paladar, me entrego. Depois do terceiro sinal não se cubra com casacos de veludo. Não ponha óculos escuros. Deixe os olhos sangrarem.

A vida então pede passagem para acontecer. Eu desperto. Sou provocada pela urgência. Corro, dou mais um milhão e duzentas mil voltas. Morro e vivo em uma hora e meia.

De repente a menina está novamente na janela, às mesmas pessoas passam, mas agora tudo está em tons de carambolas azuis.

Que vontade de engolir o mundo! Uma alegria transborda dentro de mim.



Escrito por Mosquitinho às 15h51
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- Alice.

- Alice.

- Alice.

- Onde você está?

- Ela está por toda parte.

- Está dormindo.

- Está acordada. Sonha.

- Acordada?

- Dorme sonhando.

- Tenho que ir...

- Onde você está?

- Escondi os segredos.

- Alice.

- Alice.

- Alice.

- Aqui.

- Eu estou aqui.

- Ouço vozes, tem alguém caindo no sonho.

- Tem um coelho.

- Quem roubou as tortas?



Escrito por Mosquitinho às 11h28
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(...para um ensaio...- cena 4)

-Fragmentos oníricos-

 

Após ler em voz fraca sua confissão sagrada, Elizabeth adormece num sono profundo. Alguns dias correm. Aterrada em sonhos, não consegue retornar.  Suas pálpebras pesam. O corpo enternecido se assola no cume da embriaguez.

O telefone toca. É meia-noite. A lâmpada brilha como sempre. Com algum esforço empurra os olhos para fora e acorda. Permanece estática. O único movimento que se observa em seu ser é o das pupilas curiosas para saber quem está chamando do outro lado. O telefone insiste. O desejo aumenta. Levanta-se correndo, não percebe a mala que estava na beirada e acabada tropeçando no último toque. A mão não alcança o fone. Está novamente só. Melancólica. Murcha como o girassol no dia seguinte de chuva. “Quem seria?” diz sem soltar palavras. “Espero, espero, espero”.



Escrito por Mosquitinho às 18h20
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(...para um ensaio...- cena 3)

- fragmentos de solidão-

 

Elizabeth entra em casa com sua maleta de viagem. A mesma música toca. Há somente uma lâmpada acesa no canto esquerdo da sala sem móveis. Coloca a maleta no chão. Olha para ela. Suspira três vezes submersa na escuridão. Abre a maleta e de lá começa a tirar uma coleção de cartas. Todas amassadas em formato de bolinhas de neve. Abre apenas uma. Na verdade, sempre a mesma. E lê em voz alta:

 

Estou aqui de costas. Ninguém me vê. Tendo a pensar que por vezes sou esquecida. Na rua de casa ouço o latido dos cães vizinhos. Quando estou de saída deixo a lâmpada sempre acesa para ter certeza que ao retornar alguém irá me receber. Entro sempre do mesmo modo, seguindo meu passo lento e eterno. Ah!... também deixo a música tocando serena. Escuto. Abro minha mala e leio meus solos para dançar. Às vezes tropeço em meus pés, às vezes alguém cheira meu perfume de longe e suspira. Então me deixo seduzir sem pudor. Calço meus sapatos delicadamente, recolho meus papéis e me lanço na beira da estrada perdida dentro de mim. Chego lá pontualmente. Sempre. Espero. Espero. Espero. Nunca  vejo. Mas sei que está por perto, à vagar... mesmo que de costas!"



Escrito por Mosquitinho às 16h09
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(...para um ensaio...- cena 2)

 

Rua escura. Cachorros latem. Uma latinha rola no chão. Ela já tem nome. Elizabeth caminha com uma maleta de mão, cabelos molhados e sapatos bonecas. O som de seus passos ecoa alto. Há algum tempo procura um telefone público. Ouve-se um grito.

Elizabeth sai em disparada e tropeça na latinha caída. Mergulha com a cabeça no meio fio. Perde um pé do sapato. Adormece.



Escrito por Mosquitinho às 14h09
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