...o que há para ser...
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Acumulo segredos em meu altar. Eu fecho os olhos quando me deito e guardo tudo nos sonhos. Eu não quero partir, jogar fora as frutas colhidas na última estação, então eu aceito de um jeito que me dói, da maneira que não me acolhe. Escuto suas palavras de carícia, deixo me tocar delicadamente e no instante seguinte me recolho. Não é possível sangrar mais. Dentro de mim há folhas secas. O melhor seria, talvez, guardá-las dentro de um livro velho, mas esmago cada uma com meus pés de unhas vermelhas e vou cobrindo a calçada na frente de casa. Dia de sol, dia de chuva, de vento, de mato molhado, de gotas de orvalho... As folhas não se transformaram em rosas de pétalas coloridas. Eu ainda procuro a primavera. Rondo dentro de mim um canto para me esquentar. Reservo para cada dia uma lareira enquanto a procuro. Tenho medo que a lenha acabe, então saio correndo pelas praças e campos. Vôo desvairada e sinto o cheiro bom de terra molhada, aquele que vem quando a chuva passa. Eu respiro o aroma da dama-da-noite. Ela me purifica para que eu não desista de procurar lenhas e aquecer nossos planos, ou melhor, os meus... Tochas para iluminar o vento das folhas secas.
Guardo aqui dentro a volúpia dos teus lábios. Os recebo e me deleito antes das pupilas fecharem. Embriagada de prazer volto para o canto sagrado a jogar mais uma gota que cultivamos na noite. Se conseguisses ver quanta coisa que tem lá, às vezes fica até difícil de caminhar. Infinitos quadros guardados, entre eles gravuras pintadas de tinta que nem o tempo espalhafatoso seria capaz de desbotar. Há também fotos amareladas de beijos molhados e sorrisos empalidecidos.
O meu altar permanece petrificado com as velas acesas, o cheiro de incenso impregnando as paredes tortas azul anil, juntamente com o silêncio torturante. A primavera não chega em qualquer canto... Vaidosa que só! Enquanto espero, a intimidade se cala. Nossos corpos nus e quentes ficarão cada vez mais curtidos como um bom vinho tinto a ser bebido sinuosamente.
Escrito por Mosquitinho às 11h42
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Que estação do ano estamos? Outono? Está chovendo de novo em meu jardim. Agora pouco fui dar uma volta. Coloquei uma calça de moletom, um capote, o coturno velho e desgastado com sola de borracha e o guarda-chuva xadrez. Saí por aí, as folhas molhadas, o sol que não entrou. Está atrasado na certa. Mal sabe ele o quanto detesto atrasos. E ainda mais caminhando sozinha. Olhei para os lados. Não, não estava sendo seguida. Bem que seria bom. Uma aventura no meio de tanta monotonia. Se bem que ontem lendo alguns trechos de um livro chamado “A Disciplina no Amor”, de Lygia Fagundes Telles, ela citava que o belo é de uma enorme monotonia. Há então de se ter uma vida monótona. Pois a solidão também se encontra neste solo. Solo desamparado e pouco fértil. Estou aqui na frente da tela diagnosticando a tamanha solidão que me encontro. E por que haveria de ser diferente já que não para de chover e tranquei a porta a sete chaves? Eu caminhei tanto para te alcançar. Corri. Fui até o Rio de Janeiro. Voltei. Desenlacei laços. Recusei beijos. Costurei retalhos. Queimei papéis que voavam pelo ar. Escrevi roteiros instigantes para o momento exato. Construí uma realidade paralela para meus sonhos acordarem de mim. Nada. Vazio. Oco. O silencioso dentro de mim está gritando escaldante e desesperado. “Se ele estivesse por aqui eu estaria salva salva salva” ( também um trecho da Disciplina do Amor). Será mesmo? E assim começa meu outono...
Escrito por Mosquitinho às 11h50
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Há dias...
... com a cara amarelada de cansaço.
... com o jornal amanhecido.
... com o corpo pra bater.
Há dias em que não me encontro. Uma profusão de vontades e silêncios.
Vontades minhas, vontades dias e noites.
Silêncios ditos.
Há dias...
... sem fome de viver.
... sem dizer aquelas palavras tão ditas sempre.
... sem o liquidificador batendo o mesmo bolo.
Há dias a tempestade não vem e o sol está morto.
Morro há dias.
... com volúpia.
... sem carne.
... com desejo.
... sem tão pouco do que se há de ter.
Há dias busco textos e idéias interditas por ti, por mim
... com este mundo maldito.
... com pouco dinheiro na calça jeans desbotada.
... com um sorriso amuado
Estou no aguardo (-há dias...) por uma resposta estupidamente repetida por meses e meses e já decorei como tabuada.
Surpreenda-me ou cala-te...
... sem medo
... sem charme.
... sem ajeitar os sapatos de inverno
... sem olhar para trás e ver a última estação.
Escrito por Mosquitinho às 12h38
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Guardo um pouco de tudo
... do seu cheiro, dos pedaços de guardanapos em formatos de cartas esquecidas...
... do seu sorriso aberto para mim.
Guardo um pouco de tudo para deixar menos infinito os oitenta mil segundos que tem o dia!
Guardo um pouco de tudo na minha boca sem pudor... para calar quando quiser(- com beijos, claro!)
Guardo um pouco de tudo, assim finjo que nunca morro no tempo, que a vida não passou, que o tempo é apenas mais uma das coisas esquecidas no meio de tantos pés.
(17/06/07)
Escrito por Mosquitinho às 11h42
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Um dia eu te chamei para "dançar" e ficou com medo da paralisia infantil. Então eu te beijei e antes disso acontecer eu já sabia que tinha encontrado o amor. E "dançamos". Me convidou para passar a noite com você e lembro o que me disse:" não preciso fazer nada mais essa noite, eu já estou feliz só de estar ao seu lado". A partir daí não paramos de dançar mais. E íamos ao mesmo passo, na mesma música e mesmo quando eu estava no meu quarto e você no seu era como se um fiozinho de malha dourada nos puxasse para a mesma canção. E eu fui tão sua e você tão meu que nada mais importava. E eu não sentia medo. O amor nos encontrou. E o rapaz tímido de óculos sorria tanto, tanto. E o rapaz tímido de óculos me fez a mulher mais feliz do mundo. Eu podia morrer ali que morreria feliz. No dia em que eu não quis mais dançar tive medo. Não pense que foi fácil, mudar de par é muito difícil. As mãos são outras, as vezes você pisa no pé, as vezes quer acelerar o ritmo, mas o par novo não compreende só de olhar nos olhos. Você me cobriu de rosas vermelhas, me deu presentes, me procurou, me implorou, chorou como criança. Eu chorava também, estava tudo tão confuso pra mim. Até hoje não sei o que aconteceu, simplesmente eu fiquei absorta numa música barulhenta e nada era ouvido por mim. Eu matei o amor. O esmaguei na porta de um carro e nem percebi. Quando a música parou que me dei conta. Fui enlouquecida, desvairada atrás do meu amor perdido. Ela já não me amava mais. As nossas almas se encontraram de um jeito tão bonito, tão delicado. E eu tão sua, tão sua mulher. (...) O descompasso. Quando eu ouço samba e você ouve música clássica a gente não se escuta, você não me vê. Eu abaixo o volume para te olhar. E te olho, e te brindo com o meu amor tão puro e tão sagrado. Eu também gosto de música clássica (...) Vamos bailar desconjuntos, desajustados... (...) Tem música aqui, ouça um pouco!
(24/11/06)
Escrito por Mosquitinho às 14h38
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Final de ano. Sempre achei uma época triste. Natal, presentes, família, ceia. Fiquei lembrando da minha infância. Eu acreditava em Papai Noel. Quando eu era pequena meus pais faziam de tudo para que eu acreditasse nele. Era pirulito de chocolate na janela, músicas, presentes escondidos atrás das frestas. Teve um Natal que eu ganhei um saco vermelho enorme cheio de presentes, teve outro que eu ganhei um bebezão, era meu sonho! Teve um outro que ganhei um carrinho de boneca, patins com rodinhas azuis. O meu grande sonho mesmo quando eu era criança, era ter uma daquelas casas de bonecas que a gente entra dentro. Uma vez eu vi uma cor-de-rosa. Que linda! Eu fiquei lá dentro imaginando minhas peripécias. Nunca ganhei uma! Também não haveria espaço para uma casa que parece de gente grande mesmo! Acho que quando eu era criança eu gostava de Natal. Não sei, não me lembro muito bem de quase nada da minha infância. Mas fui alegre. Eu era feliz! Lembro de um sonho que certa vez tive nessa época. Aliás, eu sempre tinha esse mesmo sonho. De repente eu estava no meu quarto cheio de presentes, todos que eu queria ganhar, todos do mundo! Quando a gente é criança a gente acha que vai conquistar o mundo! E a gente conquista mesmo nas batalhas de cabaninhas, nos quebra-cabeças que se transformam em legos, nos lençóis que viram roupas, fantasmas... Como eu brincava! No meu sonho eu estava lá no meu quarto cor-de-rosa com todos os presentes do mundo, todas as bonecas de pano. Quando eu abria os olhos eles sumiam como vapor de água na chaleira. Um dia, eu pensei: “e se na hora em que eu estiver sonhando com os presentes, eu agarrar todos eles e abrir os olhos? Eu vou acordar com todos eles no meu quarto!” Que imaginação a minha! No meio do meu sonho eu me deparei com os brinquedos, agarrei todos com a maior força do mundo e abri os olhos. Que desilusão quando vi que não adiantou. Que desilusão quando os pirulitos não estavam mais na janela, quando a árvore já passou a ter menos pisca-pisca. Quando a gente vai crescendo o Natal perde a graça. Não é por causa dos presentes, mas pelos sonhos que se foram. Os meus sonhos... Papai Noel existe? Ele vinha quando eu era pequenina me visitar com suas hennas e sininhos tocando, ele vinha voando abençoar meus olhinhos ingênuos. Cadê meus sonhos? Cadê o Papai Noel e as cabaninhas de lençol velho? Essa noite eu quero sonhar com o presente que eu mais quero ganhar. E se eu sonhar vou agarrar com força e eu não deixarei os meus olhos piscarem no momento em que eu acordar. Com olhos de criança! É assim que deve ser!
(06/12/2006)
Escrito por Mosquitinho às 20h39
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- Não te vejo desde antes de ontem e parece que faz dias! Que saudades!
- Eu também, estava morrendo de saudades de você!
Um toque no interfone. "Está subindo". Eu cheguei. A porta se abrindo no final da escada e... "Olha lá, ela vem se exibindo, fazendo charme", "tudo isso é pra você, seu bobo, não percebe!". Que luz forte que tinha aquela cozinha. Bem, acho que todas são assim, afinal cozinhamos nelas! "o que temos hoje?", "pizza", "adoro pizza! Mas comemos bastante não?!". "E de sobremesa?" "mexericas, uvas, frutas diversas. Nessa casa não faltam frutas, ah... e sucrilhos também!". Quantas pizzas, quantos sucrilhos, algumas queimaram... Mas eram deliciosas, aquele queijo derretido e as azeitonas então? Tão pretinhas, tão pretinhas... São melhores que as verdes e vindas do Mercadão então, melhor ainda!... Um silêncio... "Sua mãe já foi dormir?", "já". Naquela casa, dorme-se cedo, você é o diferente. "Não fale alto, pode acordar minha mãe!" "vou nada, vamos para o quarto ouvir música, eu danço pra você" Uhu! Sou praticamente uma gueixa! .... que paz que estou sentindo... Não queria me despedir nunca... Ficaria aqui... "São 3 horas da manhã, preciso dormir, acordar cedo, tenho que estudar, trabalhar, comprar meu apartamento, terminar de ler os livros, e o centro de pesquisa e os meus projetos? Não dará tempo"... e eu não queria me despedir nunca. "que droga! que sono!", "você não vem comigo?", "você não fica brava se eu não te acompanhar até o carro?" "não, tudo bem...", ... está uma neblina lá fora, um chuvisco, "ai que preguiça. Ainda bem que são só 10 minutos dentro do carro e estou em casa". Eu não quero me despedir mais! "ahhhhhhhhhhhhhh".
(11/08/2006 02:41)
Escrito por Mosquitinho às 13h12
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